Este último tempo, marcado por notícias que nos habituam a viver como se não houvesse certezas, tenho pensado sobre a compreensão que há em Portugal sobre o que é a democracia. Difícil reflexão, dirão; e assim é. (Quero deixar claro que me incluo em tudo o que vou dizer.)
A nossa inexperiente democracia não existe de facto. Melhor dito, existe formalmente; mas não existe de facto nas mentalidades. Melhor dito ainda: existe na medida em que não discordam de mim ou em que não defendem posições claramente contrárias às minhas.
Chegados a este ponto ninguém se lembra dos valores da constituição, da liberdade (de expressão e outras), mas também do valor da diferença, do respeito pela diferença – respeito activo, em contraposição a respeito “tolerância” -, enfim, do outro e do direito que tem de ser como é.
E porque falas tu disto? – perguntarão. Porque cheguei à conclusão que não toleramos que alguém diga coisas que, desde o nosso ridículo ponto de vista (ridículo enquanto pequeno), estão erradas. Aqui acaba a democracia e todas as liberdades a ela inerentes. A minha verdade (o meu ego) sobrepõe-se a todas as outras de uma maneira tendencialmente “silenciante”. É isso mesmo: somos todos tendencialmente ditadores. Os de esquerda e os de direita; os de cima e os de baixo. Parece-me que não é preciso dar exemplos, ou é?…
Talvez 37 anos não sejam suficientes para aprendermos isto. Ou então somos lentos.